O
que faz de você, você?
Engraçado,
tímido, agressivo, egoísta,
inteligente. Um caldeirão de influências forma
a sua personalidade. Descubra o que faz com que você seja
do jeito que é ¿ e veja o que ainda consegue
mudar
Por Mariana Sgarioni e Leandro Narloch
A
individualidade humana é um mistério: somos
todos diferentes uns dos outros, e isso acontece até mesmo
com gêmeos idênticas que carregam o mesmo DNA
e foram educados do mesmo jeito.
A
ciência moderna tenta há séculos explicar
a intrincada malha que forma o nosso comportamento. Nessa corrida,
há filósofos, psicólogos, neurocientistas,
geneticistas e até literatos.
Nas últimas décadas, o debate ganhou o nome
de nature versus nurture. No primeiro time está quem
coloca na natureza a raiz da nossa personalidade. No segundo,
quem acha que o ambiente é o grande definidor.
Hoje,
essa polêmica deu lugar a uma cooperação,
com os dois lados trabalhando juntos para desvendar a individualidade.
Dessa união, estão saindo muitas das respostas
novas e mais precisas das principais questões sobre
o comportamento humano. Conheça algumas delas:
A
genética determina o comportamento?
Não.
O nosso DNA possibilita e favorece determinados tipos
de comportamento,
mas não determina nada. Os genes não restringem
a liberdade humana eles a possibilitam, diz Matt Ridley,
autor do livro O Que Nos Faz Humanos, em um artigo para
a revista
New Scientist.
A
genética não é um destino, não
determina o que você vai ser. Ela oferece predisposições.
Todos estão sujeitos a influências ambientais
que podem, sim, mudar a expressão dos genes e fazer
com que eles simplesmente não se manifestem, diz André Ramos,
diretor do Laboratório de Genética do Comportamento
da Universidade Federal de Santa Catarina.
Traços de personalidade são idéias, conceitos
culturais: dependem dos olhos de outros e da cultura de um
lugar e de uma época para aparecerem e ganharem um nome.
O que é inteligência, pedofilia, má educação
ou timidez no Brasil pode ganhar nomes bem diferentes no Japão,
por exemplo. Por isso, não dá para encontrar
a personalidade pura no DNA.
Mas
a nossa herança genética pode, sim, influenciar
o funcionamento do corpo, que, numa cultura ou em outra, resulta
em comportamentos diferentes. Ao nascer, cada ser humano carrega
uma composição de 30 mil a 35 mil genes, formações
de DNA que ficam ali dentro dos nossos 23 pares de cromossomos.
As principais descobertas dos geneticistas do comportamento
relacionam os genes à regulação de mecanismos
fisiológicos que mudam o comportamento, como impulsividade,
vício de determinadas substâncias e memorização.
Há indicações, por exemplo, de diferenças
genéticas na regulação da dopamina, neurotransmissor
relacionado à sensação de prazer. Em algumas
pessoas, a cocaína provocaria uma descarga anormal de
dopamina, causando vício. É provável que
esse medidor químico sofra uma deficiência natural
e, portanto, alguns indivíduos sejam mais suscetíveis
a se viciar em cocaína, dizem os pesquisadores Howard
S. Friedman e Miriam W. Schustack, autores de Teorias da
Personalidade.
Os
pais influenciam a personalidade dos filhos?
Sim,
mas a influência é imprevisível.
Desde
os primeiros estudos de Sigmund Freud, e até antes
deles, os pais são tidos como os agentes mais importantes
na criação de uma pessoa. São os primeiros
a conter o que há de animal em nós, nos ensinando
a controlar desejos em nome de regras morais, castigos e convenções
da civilização. Com essa premissa, Freud foi,
ao lado de Darwin, um dos grandes pensadores do século
19 a abalar a idéia de Deus, mostrando que as noções
de pecado e culpa são transmitidas pelos pais e podem
ser a causa de vários dos nossos problemas.
Do
conflito entre os nossos desejos e culpas, sairiam traços
de personalidade (como a timidez, a vergonha), recalques inconscientes
e fraquezas que nos acompanham vida afora. Freud vai mais longe:
para ele, o jeito com que meninos e meninas lidam com a figura
do pai e da mãe é essencial para definir a
sexualidade da pessoa.
Mas
as idéias do austríaco fomentaram tantas
generalizações grosseiras e técnicas furadas
de educação que hoje, fora dos círculos
de psicanalistas, estão cada vez mais desacreditadas
– e o pai da psicanálise é considerado mais um
filósofo que propriamente um cientista.
O
que não quer dizer que ele deva ser descartado. Até o
ponto que a genética permite, um bebê recém-nascido é como
um molde de argila flexível. O que ele aprender, ver,
ouvir, sentir será armazenado no cérebro e irá compor
a maneira como agirá no futuro. Ao nascer, vai demorar
meses até conceber idéias básicas, como
a de ser distinto das coisas ao redor. Aos poucos, porém,
vai se dar conta e que consegue mover algumas dessas coisas
– seus braços e pernas – e que outros seres fazem o
mesmo. Assim, a partir do outro, o bebê começa
a ter a noção de eu, de que é um indivíduo.
Conforme
interage com os adultos, a criança se molda
ao mundo em que nasceu. Se os adultos ao redor forem lobos
ou cavalos, passará a vida toda uivando ou relinchando
e bebendo água com a língua, como aconteceu como
o “Selvagem de Aveyron”, garoto encontrado na França
em 1799 que viveu a infância isolado na floresta e por
volta dos 12 anos trotava, farejando e se alimentado de raízes.
Ou
então as indianas Kamala e Amala, dos anos 20. Acolhidas
por lobos quando recém-nascidas, elas andavam de quatro,
tinham horror à luz e passavam a noite uivando. Entre
lobos ou humanos, a criança aprende o que pode ou não
fazer. Percebe que, ao chorar mais alto, a mamadeira vem mais
depressa. Portanto, vale a pena ser manhosa, pelo menos de
vez em quando. Quando joga um objeto no chão, é repreendida
pela mãe e ganha uma bela bronca. Também começa
a diferenciar sentimentos: o que achava ser dor, começa
a receber nomes diferentes como “fome”, “ciúme”, “medo”.
As
amizades influenciam?
Muito mais do que imaginamos.
Em
1998, a psicóloga americana Judith Rich Harris causou
uma revolução nas teorias da personalidade ao
afirmar que o convívio com os pais é só um
dos fatores que influenciam a personalidade dos filhos – e
um dos menos importantes. No livro Diga-me com Quem Anda...,
ela fala que as relações horizontais dos 6 aos
16 anos – da criança com seus pares, o grupo de amigos
da escola ou da vizinhança – são o grande definidor
da personalidade adulta.
Para
fundamentar o que diz, Judith Harris recorre aos 6 milhões
de anos de evolução dos humanos. Durante esse
tempo, os seres humanos que mais deixaram descendentes foram
os que se acostumaram a andar em bando e conseguiram ter uma
boa posição dentro dele. Quanto mais valiosos
dentro do grupo, mais descendentes geravam. Do grupo dependia
a sobrevivência e, depois da morte, a sobrevivência
dos descendentes.
Essa
história evolutiva, para Judith Harris, resultou
num cérebro sedento por relações gregárias
e classificações que diferenciem um grupo de
outro e os membros entre si. Hoje, essa herança da seleção
natural funciona assim: ao se identificar com um pessoal, a
criança tende a agir conforme as regras internas daquelas
pessoas, tentando encontrar um papel que lhe renda uma boa
posição entre os membros.
De
certa maneira, estaria tentando realizar sua missão
na Terra: ganhar a proteção do mesmo sexo, para
não ser atacado, e atrair o oposto, para se reproduzir.
“A identificação com um grupo, e a aceitação
ou rejeição por parte do grupo, é que
deixam marcas permanentes na personalidade”, afirma Judith
Harris.
Para
ela, é assim que o gordinho da turma vira o gordinho
engraçado: ele usa o humor para conquistar atenção.
Assim se explicaria também a garota mais bonita da sala
que não se preocupa em desenvolver a inteligência
– a beleza já a destaca.
O
principal exemplo usado pela psicóloga são
os filhos de imigrantes. Apesar da língua, da religião
e dos costumes que os pais tentam transmitir, a criança
os ignora facilmente quando começa a ter contato com
amigos do novo país. Aprende o idioma de uma hora
para outra e, em poucos anos, se parece muito mais com os
amigos
que com os pais.
Outro
exemplo é uma pesquisa com panelinhas de estudantes
americanos por volta dos 12 anos. O psicólogo Thomas
Kindermann descobriu que crianças de um mesmo grupo
tinham notas e atitudes parecidas na escola. Se fizer parte
de um grupo em que o desempenho escolar é importante,
a criança se estimula a ter melhores notas. Se não
conseguir, é provável que vá para outra
panelinha, dos esportistas, por exemplo, que não consideram
as notas uma coisa superlegal.
A
teoria de Judith explicaria por que pais normais, que
seguiram sempre
as regras da boa educação, deparam com
um filho criminoso. Talvez nossos avós não estivessem
errados ao se preocupar tanto com as más companhias.
A teoria também tem uma conseqüência aterradora:
de que a educação teria pouquíssimo efeito
sobre os filhos. Eles não se tornam o que os pais querem
que sejam – mas o que os amigos querem. Se é assim,
então como educar os filhos?
O estilo de educação importa?
Pouco.
Traços de personalidade dependem de diversos fatores
e são dificilmente previsíveis. Por isso, estudantes
de um colégio militar não se tornam necessariamente
adultos metódicos, e os de um colégio liberal
não ficam mais criativos.
Também não há comprovação
científica de que impor limites rígidos previne
que o filho seja um adolescente infrator. Dizer que o estilo
de educação importa pouco na personalidade deve
fazer psicopedagogos e professores estremecer. Mas a afirmação
pelo menos livra os pais de tanta culpa e responsabilidade
pelo destino dos filhos.
Notícias de adolescentes de classe média que
ateiam fogo a mendigos ou espancam empregadas costumam ver
acompanhadas de críticas aos pais. A idéia por
trás dessa opinião é que os pais são
responsáveis pela personalidade e por todos os atos
dos descendentes.
Os
primeiros estudiosos a culpar os pais pela educação
dos filhos foram os psicólogos behavioristas. Eles adaptaram
as idéias de Freud sobre o papel dos pais e criaram
sistemas de educação baseados em estímulos
e respostas. O psicólogo John Watson, famoso no começo
do século 20, chegou a dizer que conseguiria fazer de
qualquer criança um médico ou artista de sucesso
se pudesse aplicar na “cobaia” um sistema contínuo de
estímulos e respostas.
De
pensadores como Watson, veio a idéia, comum hoje
em dia, de que uma personalidade bem formada é resultado
de uma educação de recompensas e punições.
Essa idéia embala centenas de livros com fórmulas
mágicas para transformar crianças em adultos
simpáticos, bonitos, bem-sucedidos e livres das drogas.
E resulta em pais que se sentem despreparados para criar
filhos bem formados.
Mas
não é preciso ser perfeito para ter filhos,
sobretudo porque, como você viu, os pais não determinam
o destino das crianças e a influência deles é imprevisível.
Muitos
dos adolescentes que engravidam cedo, se afundam em drogas
ou espancam empregadas receberam a mesma
educação
de jovens que andam na linha – às vezes, os próprios
irmãos.
Casos
assim mostram que seres humanos não são
robôs que podem ser programados pelos pais ou por pedagogos. É importante,
porém, não confundir pouca influência com
nenhuma influência. “Muitos pais hoje em dia acham que
devem agir como amigos. Mas a autoridade e a hierarquia precisa
existir, para que se transmita o que é certo ou errado”,
diz Eloísa Lacerda, da PUC-SP.
Também é bom que os pais
fiquem atentos ao relacionamento do filho com os amigos
– se ele for sempre a vítima
do grupo, sempre humilhado pelos colegas, talvez seja o caso
de trocar de escola ou incentivá-lo a se relacionar
com outras crianças. “Ao morar num bairro e não
em outro, os pais podem aumentar ou diminuir o risco de que
os filhos venham a cometer crimes, sejam expulsos da escola,
usem drogas ou engravidem”, afirma Judith Harris em Diga-me
com Quem Anda...
Por
que os irmãos são tão
diferentes?
Ninguém
sabe exatamente.
Irmãos siameses são um exemplo de que nem o
ambiente nem a biologia conseguem explicar completamente a
personalidade. O lar é um fator importante para fazer
irmãos se diferenciar entre si. Uma pesquisa da Universidade
de Minnesota descobriu que gêmeos idênticos são
mais parecidos quando criados em ambientes separados.
Você já deve ter ouvido histórias de gêmeos
separados no nascimento que se reencontram 40 anos depois
e descobrem que ambos compraram carros azuis, adoram
feijoada
e jogam xadrez muito bem. Longe um do outro, eles seguiram
iguais.
Muita
gente explica a personalidade de alguém pela
ordem de nascimento ou pela diferença de idade entre
os irmãos. O senso comum diz que os primôgenitos
são mais independentes; os do meio, rebeldes; os temporões,
precoces. O historiador Frank Sulloway, da Universidade da
Califórnia, tem estudos nessa linha. Ele analisou a
ordem de nascimento de mais de 6 mil personalidades mundiais
e concluiu que os filhos mais velhos são mais conservadores,
já os mais novos são os criativos e revolucionários
– é 18 vezes mais fácil achar um revolucionário
caçula que um primogênito.
A
pesquisa de Sulloway mostra só um padrão de
comportamento (ele não propõe uma lei da natureza),
mas contribui para o que se chama de Teoria dos Nichos, tese
mais aceita para explicar a diferença entre irmãos.
Em casa, a criança procura desempenhar um papel diferente
dos irmãos mais velhos. Se um irmão se destaca
como esportista, ela pode se apegar mais aos livros. Se um é mais
apegado à mãe, a filha do meio pode ser mais
independente.
Steven
Pinker, psicólogo evolucionista e professor
da Universidade Harvard, acredita que a variação
de personalidade se resume numa palavra: acaso. “Falo de acasos
como um bebê que cai de cabeça no chão
sem querer, um vírus que ele pega, um pensamento que
deixe uma impressão permanente. Esses fatores podem
ter uma influência tão grande no que somos quanto
os genes, uma influência muito maior do que os pais”,
afirma ele no livro Tábula Rasa.
É
possível mudar nosso jeito de ser?
Sim.
Na
verdade, mudamos nossa personalidade a toda hora. Agimos
de modos diferentes com pessoas de idade,
sexo
ou posição
social diferentes.
Você já deve ter passado pela sensação
de ser amigável e inteligente com alguém que
o deixa confortável e agir do modo contrário
com quem o desafia. Além disso, a nossa personalidade
depende do que os outros acham: você pode ser chato para
uma pessoa, mas gente boa ou confiável para quem o conhece
melhor. O homem tem tantos eus quantos são os indivíduos
que o reconhecem, disse em 1890 o psicólogo William
James, um dos primeiros a estudar a personalidade.
Mas é claro que há comportamentos e atitudes
que são muito difíceis de largar. Somente 10%
das pessoas com pontes de safena mudam hábitos alimentares
e deixam o sedentarismo. As outras acabam morrendo de ataque
cardíaco simplesmente porque não conseguem
mudar.
Muitas
vezes um pai que bate na mulher e nos filhos promete a
si mesmo parar com as agressões, mas não consegue.
Talvez os genes favoreçam o comportamento impulsivo
e não é nada fácil ir contra a própria
composição genética.
Ou
então, olhando pelo lado da psicologia, somos tão
arraigados à referência dos nossos pais e às
experiências da infância que esses traços
viram nossa identidade.
Se é assim, fica difícil até perceber
o próprio modo de ser. Mesmo assim, dá para mudar.
Não existe nenhuma pesquisa científica que mostre
que o ser humano não tem jeito, diz Mariângela
Gentil Savoia, psicóloga do Hospital das Clínicas
de São Paulo.
De
ter consciência de si próprio, um traço
bem arraigado à personalidade, atribuir a ele uma causa,
vencer derrotismos e apegos, vão anos, se não
uma vida toda. Mas talvez o caminho de nos conhecer, mudar
o que for possível e nos contentar com o que somos
seja o grande desafio da vida.
Fonte:
Revista superinteressante - edição
248 - jan 2008
|